Ford Mustang Muscle cars Testes
Teste Ford Mustang GT Fastback: o mito está mais vivo do que nunca
Desta vez, testamos o Ford Mustang GT Fastback, o muscle car americano que chega agora com 450 CV e muito carácter e personalidade.

Era uma segunda-feira normal e corrente e eu estava a caminho de casa para almoçar e tratar das minhas tarefas. De repente, o ecrã do meu telemóvel iluminou-se junto com a característica vibração das chamadas. Tratava-se do meu colega e amigo Diego. Rapidamente um leve sorriso desenhou-se no meu rosto, já que as suas chamadas costumam ter como objetivo fechar algum teste ou decidir quem vai comparecer a uma apresentação. Após uns segundos de conversa informal, o Diego informou-me de que teria de ir buscar um Ford Edge umas duas semanas mais tarde mas, para minha surpresa, acabou por se verificar que o meu encontro não seria com o SUV da marca americana.
No dia 28 de maio recolhi as minhas coisas e dispus-me a deslocar-me até à capital espanhola para encontrar esse suposto Edge. Nos dias antes de um teste costumo sempre fazer os trabalhos de casa e informar-me sobre o carro em si, motorizações, características técnicas, etc. Mas algo me dizia que essa recolha de dados sobre o SUV da Ford iria ser em vão.
Mal aterrei no aeroporto Madrid-Barajas Adolfo Suárez, o Diego voltou a ligar-me. Aproximava-se uma mudança de planos, já que o meu colega tinha falado com a marca e disseram-lhe que não seria possível ceder o Edge, que outro veículo desconhecido o iria substituir. Fiquei ainda mais em alerta. Apanhei os transportes públicos para chegar à sede da Ford e, durante o caminho, começou na minha cabeça um bombardeamento de dúvidas, nervos e perguntas, as quais estavam prestes a ser dissipadas.

“Bom dia, venho do Highmotor, para levantar um carro de imprensa”, disse à simpática rececionista da Ford com certo tom trémulo. Passados poucos minutos, uma das pessoas do departamento de imprensa da marca desceu ao átrio para me receber. “Estás pronto? Que carro que vais levar” disse-me enquanto me mostrava umas chaves com um cavalo a galope desenhado nelas. “Não pode ser…” pensei para mim. “Vamos, segue-me, está no piso -2”, disse ao mesmo tempo que fazia gestos para nos dirigirmos ao elevador.
Foi a viagem de elevador mais longa da história. A minha mente não parava de repetir: “não pode ser, vou experimentar um dos meus carros favoritos, o Ford Mustang”. Por fim chegámos ao famigerado piso -2 e rapidamente consegui vislumbrar um Bullitt com matrícula alemã, uma unidade azul-marinho mas, de repente, um feixe de luz encarregou-se de revelar aquele que seria o meu companheiro de aventuras durante a semana seguinte: um Ford Mustang GT Fastback rematado na cor chamativa Orange Fury, com peças Ford Performance e duas imponentes riscas negras que percorriam toda a carroçaria. A minha carruagem rumo à felicidade graças a esta grande surpresa previamente tramada.
Agora mais agressivo e mais desportivo
Bem, já é hora de deixar de lado o claro sentimentalismo que este carro gera em mim e recorrer à imparcialidade para analisar o Ford Mustang. Temos de ter em conta que estamos perante um restyling, pelo que as alterações que o muscle car por excelência sofreu são escassas mas mais do que suficientes para provocar uma estética mais agressiva e desportiva.

A frente dispõe agora de faróis controlados pela tecnologia LED e um desenho mais afiado, que ajuda a assentar essa essência pura e dura característica do Mustang. Esta mesma tarefa a aplica à perfeição o splitter dianteiro que, através de uma peça de plástico preto, emula uns caninos nos lados capazes de beneficiar a aerodinâmica do desportivo.
Músculo, músculo e…mais músculo! É assim que se define a lateral do Ford Mustang, onde uns passa-rodas largos e umas linhas marcadas continuam a fazer gala do seu carácter rude. A mesma sensação transmitem o capô alongado e a traseira curta, um casamento muito habitual neste tipo de veículos e que consegue adoçar o conjunto com altas doses de desportividade.

A parte traseira do desportivo americano também sofreu modificações e, francamente, assentam-lhe muito bem. Os farolins traseiros -também equipados com tecnologia LED- adotam uma forma mais curva do que no modelo de 2016, fazendo com que o Mustang apresente uma aparência mais moderna e atual. O difusor alberga agora uma saída de escape quádrupla na variante GT, que, ao mesmo tempo, dirige a orquestra de sopro do muscle car, e que orquestra…
Um habitáculo com melhores qualidades
Se o segmento dos muscle car se caracterizou por algo foi por apresentar uma estética muito agressiva mas um interior bastante pobre em termos de qualidades. Isto mudou com o restyling do Ford Mustang. A marca do oval esforçou-se por melhorar os acabamentos do seu filho predileto, algo que se complementou com um dispositivo tecnológico à altura dos seus principais concorrentes europeus.

Mas o que faz com que o Mustang tenha agora um interior melhor acabado? Pois, principalmente, a presença de materiais macios nas zonas a que se recorre com frequência. A primeira coisa que nos chama a atenção quando acedemos ao habitáculo é um volante de dimensões consideráveis que rejeita a moda de ser achatado por baixo, algo que agradeceremos na hora de manobrar e na hora de atacar curvas.
Este volante revestido em couro apresenta um toque muito agradável, mas a verdade é que o amplo conjunto de botões que o rodeiam gera alguma confusão. Por cima deste encontramos uma das principais novidades que oferece o restyling: um painel de instrumentos totalmente digital de 12 polegadas. Este conta com uns gráficos agradáveis e uma fluidez irrepreensível, que se fará notar quando mudarmos de menu ou de modo de condução. Mas a grande quantidade de submenus que oferece faz com que navegar por ele exija certo período de adaptação para saber onde está tudo.

O tablier conta com uns acabamentos em couro muito agradáveis, mas o plástico duro continua a fazer-se presente na zona central, onde também encontramos o sistema de infoentretenimento, que funciona com rapidez e apresenta um software intuitivo. Mas é nas portas que realmente notamos melhoria, já que agora certos revestimentos em couro proporcionam uma melhor sensação de qualidade.
A desportividade também está presente no habitáculo do Ford Mustang, algo que nos recordam os bancos tipo baquet assinados pela Recaro, a alavanca de velocidades rematada em simulação de fibra de carbono ou os tapetes específicos por cortesia da Ford Performance. Os bancos acolhem muito bem e, apesar da sua forma, não são de todo desconfortáveis. No entanto, não posso dizer o mesmo dos lugares traseiros, que estão mais pensados para crianças ou para pessoas que não meçam mais de 1,80. Mas estes são compensados por uma mala surpreendentemente grande, com capacidade de 408 litros, embora esta fique prejudicada por uma boca de carga alta.
Ao volante do Ford Mustang GT: um desportivo que transborda personalidade
Mas chegou o momento mais esperado, o de premir o botão “Engine START” e contar-vos o que transmite o Ford Mustang quando nos sentamos ao seu volante. Antes de me embrenhar nesta secção, devo reconhecer que o muscle car não é um carro para fazer tempos -o que também se pode- mas sim para sensações, já que o seu carácter e personalidade vos arrancarão um sorriso independentemente do tipo de condução que estejamos a fazer.

Debaixo do seu imenso capô esconde-se o popular motor Coyote, um propulsor daqueles que estão em vias de extinção e que deveríamos salvar a todo o custo. Trata-se de um bloco atmosférico de 5.0 litros V8 que declara 450 CV às 7.000 rpm e 529 Nm de binário às 4.600, valores que, quando chegam, o fazem com contundência e sem hesitar.
Arrancar todas as manhãs o Ford Mustang GT é o melhor de todos os antidepressivos. Não importa o tipo de dia que tenham tido, acreditem em mim quando digo que vos vai alegrar. O seu rude e grave rugido -também conhecido como cântico celestial- pode modular-se graças aos diferentes níveis de sonoridade, mas tenho de reconhecer que me foi impossível ativar o modo silencioso. Daqui peço desculpa aos meus vizinhos.

Esta sonoridade não é em vão, já que todo o conjunto do Mustang reforça a sua fama de veículo com carácter. Isto é possível graças a uma embraiagem dura e a uma caixa de velocidades com um toque simplesmente delicioso, cujos cursos curtos e precisos farão com que mudemos de velocidade muito mais do que o necessário. A sua direção também se pode regular juntamente com os modos de condução -sobre os quais vos falarei em breve-, mas em geral é pesada -algo que pessoalmente agradeço-, precisa mas pouco comunicativa.
A unidade de testes não tinha a suspensão adaptativa e, de série, apresenta uma calibração algo seca e dura, mas em nenhum momento me pareceu desconfortável. Controla francamente bem os balanços da carroçaria -embora estes sejam inevitáveis devido ao peso- e, ao mesmo tempo, não impede que possamos usar o Ford Mustang GT todos os dias. Em autoestrada, o seu comportamento de GT vem à tona, permitindo-nos percorrer longas distâncias com um conforto impressionante e, apesar da bravura do seu motor, é possível obter consumos de 8,5/9 litros aos 100.

Quando temos de nos enfrentar ao mundo urbano, devemos estar preparados para sermos o centro de todas as atenções, algo que se acentuou com a combinação de cores que tinha a unidade de imprensa. No modo Normal, o escape acalma-se e a direção amolece ligeiramente, algo que agradeceremos na hora de circular pelas ruas da cidade. No entanto, as suas grandes dimensões -4,78 metros de comprimento, 1,91 de largura e 1,38 de altura- farão com que circular por certas ruas seja algo apertado, juntamente com o seu raio de viragem bastante reduzido, mas a verdade é que isto é compensado em parte pela sua boa visibilidade e pelas diferentes ajudas que oferece para estacionar. Se a cidade é o terreno a bater, é fácil constatar como os consumos do Mustang sobem até aos 15/16 litros aos 100.
Mas é em estrada aberta que o desportivo americano dá o melhor de si. O seu avassalador motor mostra alguma preguiça a baixas rotações devido à sua condição de atmosférico, mas faz parte do seu encanto. Isto obrigar-nos-á a jogar com a caixa e a envolver-nos ainda mais na condução. No entanto, uma vez ultrapassadas as 4.000 rpm, o Ford Mustang oferece um impulso que parece não ter fim e que vos fará testemunhar a potência americana. Este frenesim insaciável estará presente praticamente até ao corte, proporcionando uma sensação de aceleração contundente.
A passagem em curva é mais rápida do que se pode imaginar à partida, mas os 1.743 quilos que declara na balança fazem-se notar. As mudanças de apoio são rápidas se soubermos executá-las corretamente, mas o peso prejudicará a agilidade do conjunto em determinadas ocasiões. No entanto, a traseira, muito brincalhona e violenta se a procurarmos, ajuda a arredondar as curvas, proporcionando um equilíbrio bastante acertado quando queremos desfrutar ao volante do Ford Mustang GT. Nos modos Desportivo+ e Circuito as ajudas à condução são mais permissivas e permitir-nos-ão desfrutar com a traseira, embora tenhamos de estar atentos, já que quando não provocamos o seu vaivém esta nos castigará com raiva.
Abrir o acelerador em plena curva pode provocar algum susto, mas o Mustang apresenta duas faces: uma mais dócil e amigável, e outra muito mais espontânea e irritada. Uma vez superado o período de adaptação que exige a segunda face do desportivo americano, poderemos desfrutar como nunca ao seu volante, o que será possível ao carregar com o pé direito e deixar que o V8 inunde o habitáculo com o seu carismático rugido. Mas toda esta bravura tem de ser travada, e essa tarefa cumprem-na à perfeição as pinças Brembo que equipa a variante GT do Mustang, que imobilizam o carro quando precisamos.

É verdade que as curvas não são o terreno onde o Mustang se sente mais à vontade, ao contrário de outros modelos provenientes do Velho Continente, que se destacam por uma maior precisão. Mas a personalidade do seu motor, que até parece estranha aos olhos de um europeu já habituado ao downsizing, fará com que qualquer situação seja aproveitável, independentemente das nossas intenções.
Quando queremos recorrer àquela primeira face do Mustang, é possível graças aos diferentes modos de condução. Apesar de ser rude e agressivo por natureza, podemos circular no pony car com grande despreocupação. O seu motor, com um impulso muito selvagem na zona média-alta do conta-rotações, mostra-se disposto a colaborar quando a nossa atitude ao volante é mais apaziguada. A resposta a baixas rotações é tranquila, como já mencionei, mas mais do que suficiente para nos deslocarmos com conforto.
Conclusão
Sem dúvida alguma, o Ford Mustang tornou-se num verdadeiro mito e ícone do automóvel. A história que o precede faz com que seja o desportivo mais vendido do mundo, algo que também é possível graças à relação qualidade-preço que oferece. É verdade que o muscle car da Ford não é o mais rápido, mas também não o procura nem o necessita.

O seu carácter e carisma fazem com que lhe perdoemos qualquer falha, tal como a sua musculada estética, que fará com que vire a cabeça para o voltar a ver quando o estacionamos. O seu habitáculo conta com a última tecnologia e com materiais mais do que corretos, apesar da presença de algum plástico duro. Por outro lado, as ajudas à condução, como o controlo de mudança involuntária de faixa ou a travagem de emergência encarregam-se de fazer com que o conjunto seja ainda mais harmonioso.
Com um preço de partida de 49.850 euros, é difícil encontrar um rival para o Ford Mustang. Modelos como o BMW M4 ou o Mercedes-AMG C 63 afastam-se drasticamente dos 57.442 euros que alcança a unidade de testes. Com esta premissa, estamos perante um desportivo difícil de roer em múltiplos aspetos e, apesar de vacilar em alguns, o seu conjunto equilibrado e ao mesmo tempo apaixonante fará com que consideremos o Ford Mustang GT Fastback uma opção a ter muito em conta.
Ficha técnica deste carro
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