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Opinião: Salão Veículo e Combustíveis Alternativos de Valladolid

De 6 a 8 de outubro realizou-se na cidade castelhano-leonesa a terceira edição desta feira dedicada às propostas de mobilidade alternativa espanholas e destinada a profissionais. A Highmotor deslocou-se até lá para verificar o quanto estas iniciativas avançaram, as novidades dos expositores e o que podemos esperar do panorama dos próximos anos.
Os slogans para trazer e promover os carros elétricos no nosso país já os conhecemos de sobra. E que as administrações, os governos locais e as empresas do setor energético também estejam a dar o seu contributo também não é novidade. O verdadeiramente relevante é em que estado de concretização se encontra todo esse processo; pois bem, a conclusão é que o progresso tem sido antes escasso e o futuro não se apresenta muito brilhante. Vamos destrinçar as “pedras” metafóricas nas quais os agentes envolvidos não param de tropeçar.

- Quem é que joga primeiro?
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Desacordos no acordo
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Falta de informação
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Mercado adormecido
Era uma das queixas de vários oradores nas jornadas técnicas desta edição do Salão de Valladolid. Embora todos saibam de cor as vantagens que a mobilidade elétrica vai trazer a Espanha, nem todos têm tão claro em que ordem ou como devem responder (ou mesmo se são capazes neste momento) na hora de pôr em marcha a integração dos carros elétricos.
O diretor-geral de Indústria e Inovação Tecnológica da Junta de Castela e Leão, Carlos Martín Tobalina, pedia às entidades privadas que dessem mais do seu, porque as públicas neste momento não dispõem de tanto orçamento. Recordava também que, para convencer o mercado das vantagens destes carros, é preciso que a implantação das infraestruturas de carregamento avance, que se disponibilizem os serviços necessários e que se forneça informação clara, para o que as administrações públicas não podem puxar sozinhas pelo carro.
Devolvia a bola ao telhado destas o diretor comercial de furgonetas da Mercedes-Benz Espanha, Roberto Redondo Fresnillo. Afirmava que precisamente essas ações que determinarão a convicção dos consumidores vão depender das administrações públicas. Os fabricantes estão a desenvolver tecnologias cada vez mais avançadas de mobilidade alternativa e com melhor capacidade de adaptação às necessidades reais dos cidadãos. No entanto, não poderão ser úteis se as infraestruturas não avançarem, se os serviços específicos não forem divulgados ao público e se o resto dos agentes participantes não virem que o processo lhes vai sair rentável a longo prazo.

Além de tudo isto, não ajuda a falta de unanimidade em determinados aspetos-chave da mobilidade sustentável, tanto do lado privado como do público. Por exemplo, o próprio Carlos Martín assinalava que, por parte da Junta de Castela e Leão, a execução dos seus planos de fomento da utilização do carro elétrico seguirá os mesmos critérios que usa o Governo espanhol, pois não faz sentido que cada Comunidade Autónoma acabe por criar outros completamente diferentes. É uma tendência que seria prejudicial para as empresas e para o público, pois retiraria confiança ao processo. Sobre isto precisou o diretor do programa Zero Emissões da Nissan em Espanha, Javier Redondo, que sublinhou a necessidade de “estabilizar os incentivos” da mobilidade elétrica “e que sejam comuns” em todo o país.
Quanto aos trabalhos de casa dos fabricantes que ainda estão por fazer, há que esperar que cheguem a acordo sobre o padrão comum de tomadas de carregamento dos carros elétricos. Como vos comentámos na Highmotor no mês passado, não parece que as marcas tenham intenção de se apressar a resolver esta questão importante, e isso vai continuar a travar as vendas a particulares deste tipo de veículos. Aliás, os próprios construtores de postos de carregamento como a Schneider Electric lamentam esta situação e são conscientes de que não será tão fácil atrair o público geral a adquirir estes equipamentos como as empresas, devido a este emaranhado de tomadas.

A maioria dos expositores, oradores e outros agentes representados no evento concordava neste ponto. Ainda há muito trabalho de comunicação divulgativa sobre a mobilidade sustentável por fazer em Espanha. E não só em relação aos consumidores, mas também às empresas ou às frotas, que serão as mais importantes nesta integração dos veículos ecológicos.
Felizmente, neste campo estão a dar-se passos importantes na sua resolução. O Instituto para a Diversificação e Poupança de Energia (IDAE), ligado ao Ministério da Indústria e do Comércio espanhol, criou há algum tempo a página oficial do Plano MOVELE. Atualizada diariamente, nela os utilizadores podem encontrar todo o tipo de informação sobre que carros elétricos existem em Espanha, onde estão os postos de carregamento ou que apoios há para a compra e como os obter. Além disso, eventos como este próprio Salão de Valladolid são uma fonte informativa excelente para as empresas e as frotas, onde encontrarão todo o tipo de soluções para adquirir e manter veículos elétricos em condições adaptadas às suas necessidades.
Algo mais morno é a aproximação ao público por parte das marcas automóveis até ao momento. As que mais se estão a empenhar nas campanhas de comunicação dos seus produtos ecológicos são Nissan com o LEAF Tour que começou há umas duas semanas no nosso país (depois de Barcelona passará em outubro por Madrid e mais tarde por Sevilha, Bilbau ou Valladolid), Renault com o seu Espaço Zero Emission na web, ou Smart com as rotas internacionais que fez para promover o Fortwo Electric Drive e com o seu próprio site na Internet.

Que as vendas de carros elétricos ainda não arrancaram tão bem como se esperava é um fenómeno que acontece em toda a Europa. Mas no caso espanhol o panorama é ainda pior e não é claro que vá mudar em breve. No entanto, há que ter em conta que no nosso país se verifica uma série de condições que tornam mais difícil ver estes veículos nas ruas.
Como comentava o técnico da Rede Espanhola de Cidades pelo Clima Eduardo Peña González, o aumento da oferta disponível de modelos elétricos chega com mais atraso do que a outros países, o que depende das estratégias comerciais de cada marca. Se a isto se somar que a conjuntura económica nacional atravessa um momento mais delicado em comparação com a de outras nações da União Europeia, o resultado é que os consumidores veem muito pouco claro que lhes compense adquirir um carro que é sensivelmente mais caro, apesar dos apoios.
Daqui a dois ou três anos é possível que esta barreira se vá desmoronando, pois é precisamente agora que todos os fabricantes se apressam a lançar os seus próprios veículos movidos a eletricidade. Então haverá opções para todos os bolsos e representará um investimento menor que os consumidores verão recompensado mais cedo. Além disso, a maioria dispõe de autonomia suficiente para os âmbitos urbano e periurbano, pelo que este parâmetro também não dará tantas dores de cabeça. Entre os modelos apresentados no Salão de Valladolid não havia nenhuma novidade, mas mostravam que a gama de elétricos em Espanha melhorou bastante em comparação com a do ano passado, tanto em variedade como em qualidade. De facto, entre eles havia dois de fabrico nacional, o Mercedes-Benz Vito E-Cell e o Renault Twizy. No entanto, é o Nissan LEAF, já à venda por 29.950 euros com apoios, a opção mais adequada à procura de um carro de classe média em termos de prestações, conforto e 150 km de autonomia. Não esteve presente o Opel Ampera, que sairá no final deste ano por uns 7.000 euros a mais contando com os apoios governamentais, e que apresenta como vantagem uma autonomia de 500 km graças a um gerador térmico auxiliar.
Outro inconveniente que está a travar a implantação da mobilidade sustentável é que o público considera que não há pontos de carregamento suficientes para as baterias, segundo um inquérito realizado pelo IDAE. O mesmo instituto, pela voz do chefe do seu Departamento de Transportes, Juan Luis Plá de la Rosa, respondeu nas jornadas técnicas com os resultados do antigo Projeto MOVELE, que conseguiu implantar os atuais 600 pontos que existem em Espanha. Em 2012 o número aumentará para 1.000, comunicou o diretor do IDAE, Alfonso Beltrán, na primeira intervenção de quinta-feira, dia 6. Mais contundente é a visão da Fundação Instituto Tecnológico para a Segurança do Automóvel (FITSA), representada no Salão de Valladolid pelo seu secretário-geral e presidente do Fórum Espanhol do Veículo Elétrico (Foreve), Agustín Aragón Mesa. Os cidadãos terão de aprender que o mais conveniente será carregar o carro em casa durante a noite, onde já há tomadas e não é preciso esperar que instalem postos. Não obstante, como em Espanha não falta cablagem, não é nada complicado continuar a instalar tomadas em mais parques de estacionamento, edifícios públicos e outros locais dos percursos diários das pessoas. Portanto, é uma desvantagem muito relativa e que desaparecerá por completo em breve.

Conclusão
Embora o futuro continue a parecer um pouco sombrio por todas estas circunstâncias, não haverá outro remédio senão superá-las. O veículo elétrico será parte integrante da mobilidade urbana dentro de alguns anos, seja por normas de respeito pelo ambiente locais, nacionais ou internacionais, seja pela própria consciência ecológica do público. Os seus inconvenientes já estão a ser atacados, como foi explicado anteriormente e, embora a nuvem negra da crise continue a ameaçar esta reeducação dos transportes, não há que esquecer que, por sua vez, representará um estímulo necessário para o setor automóvel e a criação de emprego nas indústrias auxiliares que gerará.
A chave está em que, até se chegar a uma solução definitiva, há que conceber o futuro como uma coexistência de energias alternativas, assinalada por Roberto Redondo nas jornadas técnicas. Não está só em causa a eletricidade, mas também o Gás Natural Comprimido ou o Gás de Petróleo Liquefeito, muito mais simples e imediatos de implantar. Também sofrem com a escassez de postos de abastecimento, mas empresas como a Cepsa ou a Repsol estão a expandi-los por toda a península. As únicas opções que não poderão fazer parte desta equação serão as de gasolina ou gasóleo como energia única, pois a presença máxima destas terá de ser a dos híbridos, sejam plug-in ou não. Especialmente dado que a União Europeia obrigará, em menos de cinco anos, os fabricantes automóveis que queiram vender os seus produtos neste continente a cumprir os seus requisitos de baixas emissões.
O ideal da mobilidade sustentável não se imporá de um dia para o outro em Espanha. No entanto, com o “puxão de orelhas” geral que se notou no Salão de Valladolid entre os agentes do processo presentes, agora é mais possível que se esteja perto da mudança. Mais oferta, mais informação para a procura e as medidas das administrações públicas deveriam acabar por surtir efeito a médio prazo. Resta ver se as empresas, as frotas e os consumidores respondem antes que seja tarde demais para Espanha.
Fotos | Guillermo Arnal
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