Atropelamento mortal da Uber: poderia um condutor humano tê-lo evitado?
A condução autónoma passou a estar em causa após o atropelamento de uma mulher por um carro autónomo. Um condutor humano teria evitado o acidente?

Há poucos dias, um carro autónomo da Uber atropelou uma ciclista que atravessava uma estrada a empurrar a sua bicicleta. O Uber-car não detetou a presença da mulher “peão-ciclista” na faixa de rodagem da estrada e atropelou-a, causando-lhe a morte. Por se tratar de um veículo experimental em testes, o carro autónomo tinha um condutor de segurança sentado ao volante para “intervir” perante as situações de emergência que pudessem ocorrer, tal como exige a regulamentação que permite a estes tipos de veículos circular e efetuar testes em estradas abertas ao trânsito.
O acidente representa um travão na evolução dos carros autónomos. Vários fabricantes anunciaram a suspensão dos programas de testes em estradas abertas que atualmente realizam com os seus carros, até conhecerem com maior detalhe as causas do acidente e poderem agir em consequência para evitar que um igual se possa repetir.
De qualquer modo, são muitas as vozes e comentários levantados contra a condução autónoma na sequência do acidente. Críticas que apontam para a impossibilidade de os veículos autónomos garantirem a segurança dos seus passageiros, dos peões e dos restantes utilizadores das vias públicas por onde circulam.
Para muitos outros, o acidente mortal não é mais do que “o pedágio”, “mais um revés” na evolução e no desenvolvimento desta tecnologia, cuja implantação no futuro já é vista como inevitável.
Em relação ao acidente surgiram de imediato várias perguntas: Podia ter sido evitado? Quem foi o responsável? O que fez o condutor que seguia a bordo para o evitar?… e muitas outras semelhantes. A resposta à grande maioria delas encontra-se no vídeo que a Polícia de Tempe, a cidade onde ocorreu o atropelamento, disponibilizou no seu site. Nele veem-se as sequências gravadas pelas câmaras do carro no preciso momento em que ocorreu o trágico incidente. Por um lado, a câmara frontal grava os instantes anteriores e o momento exato do atropelamento. Por outro, a câmara onboard situada no interior do habitáculo grava a atividade do condutor e as suas reações no momento do incidente.
https://www.youtube.com/watch?v=pO9iRUx5wmM
Tendo em conta o que se vê no vídeo, a única coisa que se pode afirmar é que todas as partes envolvidas são responsáveis pelo sucedido naquela noite. Sim, de facto, noite.
Pelo que se vê no vídeo, a ciclista é culpada por atravessar a estrada a empurrar a sua bicicleta de noite, num local inadequado para o fazer. Fá-lo numa zona completamente escura e sem iluminação, apesar de haver zonas bem iluminadas bastante próximas da sua posição, tanto anteriores como posteriores, mas escolhe o pior sítio para atravessar, onde mal se consegue vê-la à distância. E não se consegue vê-la porque veste um casaco completamente escuro e uns jeans.
Por outro lado, contraria as normas de circulação, que exigem aos ciclistas e peões que utilizem a faixa de rodagem o uso de elementos refletores e roupas claras quando circulam nas estradas, ou que, ao atravessá-las, o façam, sempre que possível, pelos locais previstos para tal, o mais rapidamente possível e por zonas convenientemente iluminadas. Pelas imagens, a ciclista ou condutora da bicicleta (está a empurrar a bicicleta, não montada nela) cometeu todas as irregularidades acima descritas.

A ciclista tem a sua parte de culpa, mas isso não isenta a Uber da sua. Os sistemas do veículo falharam. O radar deveria ter detetado a presença da ciclista na estrada, pois trata-se de um obstáculo em movimento na faixa de rodagem. Não vale dizer que as câmaras não a podiam detetar porque estava na zona de sombra da estrada. O atropelamento dá-se numa reta. A grande maioria dos elementos de deteção do veículo autónomo (infravermelhos, ultrassons, câmaras, radar…) deveriam ter detetado com suficiente antecedência o ciclista, o obstáculo móvel na estrada, e ter parado o carro ou ter executado de forma autónoma a manobra de desvio.
No entanto, o Uber car continua em frente sem parar. Não sabemos se acabou por reduzir a velocidade perante a presença da ciclista, embora no vídeo anexo isso não se aprecie em nenhum momento. Quando vemos as imagens do condutor, nota-se que a velocidade do carro não é excessiva —as árvores e os postes de iluminação “passam” pelas janelas laterais a um ritmo normal e até se poderia dizer que lento—, razão pela qual o carro deveria ter ativado os diferentes sistemas de travagem com antecedência suficiente para parar e evitar o embate.
Na figura do condutor também não se aprecia uma travagem brusca do carro, dado que o condutor não se projeta para a frente de forma brusca em momento algum, apesar de se notar uma reação da sua parte no momento do atropelamento. Isto indicaria que ou os elementos de deteção do carro falharam, ou as instruções dadas a partir da informação captada por eles não foram as adequadas. Isso é algo que a investigação terá de esclarecer.

E, por último, está o condutor do carro. A sua missão é controlar a estrada para evitar precisamente este tipo de situações, mas passa quase mais tempo a olhar para o ecrã do sistema do que para a frente, para a estrada. Tendo em conta o tempo que a figura do ciclista permanece visível perante a câmara, poderíamos dizer que qualquer ação por parte do condutor não seria a correta, sobretudo se tivermos em conta que as suas mãos não seguram o volante durante a marcha, o que torna impossível uma reação instintiva da sua parte para evitar o acidente. De facto, a reação existe, mas o carro mantém em todo o momento a sua direção linear, o que indica que não realizou qualquer manobra evasiva e que nem sequer a tentou.
De qualquer modo, terias sido tu capaz de evitar o atropelamento? Deveriam os sistemas de deteção do carro tê-lo evitado? Quem é o responsável pelo acidente? Será possível evitar este tipo de situações no futuro? Estas são ainda algumas das muitas perguntas às quais a condução autónoma deveria ser capaz de responder antes de se popularizar a sua utilização.
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